04 setembro 2006

O sentido da classificação de gêneros

A classificação de gêneros sempre marcou os estudos de jornalismo. Não é à toa que, há 14 anos, o livro do professor José Marques de Melo ("A Opinião do Jornalismo Brasileiro") é referência obrigatória em todas as faculdades espalhadas pelo país. As agências de notícias vendem pacotes organizados por gêneros: colunas, infográficos ou reportagens especiais. Os dois últimos livros brasileiros sobre gênero ("Gêneros Radiofônicos" e "Gêneros e Formatos na televisão Brasileira") sugerem, para as mídias que se debruçam, uma lista de gêneros. Não há quem não tenha sugerido uma nova classificação ao se analisar os gêneros - seja midiáticos, jornalísticos, radiofônicos ou televisivos.

Compulsão por classificações? Classificar pra ensinar e organizar? Classificar é o mesmo que tipologizar ou fazer uma taxonomia? Porque, ao estudar gêneros, classificar é ... inevitável?

Relendo Michel Foucault ("As Palavras e as Coisas"), Jacques Goimard (historiador, avalia os gêneros fílmicos a partir dos gêneros literários em "Critique des genres", 2004) explica: as taxonomias são uma necessidade prática (biblioteconomia); a parte verbalizada de um sistema que funciona efetivamente; o resvelamento das instituições; instrumentais; e , acima de tudo, uma teoria implícita.

Ele diz que o objetivo das taxonomias não é classificar coisas, mas sim definir critérios de classificação. Concordamos. O princípio de classificação deve ter uma relação com a definição dos objetos classificados. Acreditamos que sim. Por isso, os critérios exprimem a epistemologia empregada na classificação. Consequentemente.

“Au demeurant le bon critère cesse très vite d'être un critère de reconnaissance pour devenir un critère de scientificité; le fait, dès lors qu'il est bien défini, appelle la théorie: (...) On retiendra une réponse autorisée: "Une classification, c'est une théorie implicite; c'est une hypothèse sur les caractères significatifs; c'est l'annonce d'une theorie explicite qui la justifiera et l'expliquera [J. Ullmo] (...)” (Goimard: 2004: 43)

Taxonomizar é parte do pensamento científico de uma época. O gênero nasceu em alta, mas armargou baixas. Na época racionalista do classicismo, o gênero foi compreendido como valor absoluto, com lei natural que o regia. Alta. No romantismo, a noção, combatida, não importava e sim sua diversidade e hibridismo. Baixa. Com o darwinismo, volta a substancialidade do gênero, que ditava a gênese do ser. Alta. Com o formalismo e a semiolinguística estrutural, as dimensões histórica, espacial e discursiva mudam o paradigma de compreensão do texto. Gestam-se os critérios de definição e os clássicos de hoje. É tempo de Tzvetan Todorov (1939, formalismo russo) e Mikhail Bakhtin (e o seu círculo, 1963).

Hoje, não podemos dizer que taxonomias são bem quistas. Vivemos os processos, circulamos em fluxos, devoramos a arte sinestésica, louvamos o hibridismo, incestivamos o subjetivismo. Ao mesmo tempo, a geração desenfreada de novos 'gêneros' mediáticos insita classificações de todos os interessados.

Goimard sugere: a solução é quantificar e qualificar. Não existe ciência sem números (cifras); não existe teoria sem equação. A quantidade traz em si a regularidade. A qualidade está em ver o que de regular constitui, caracteriza, determina ou condiciona.

"(...) La taxinomie n'est rien d'autre que l'art d'organizer des groupes d'observation: une série unique définit un ordre linéaire, circulaire ou périodique; la connexion de n séries définit un ordre matriciel n-aire. (...)" (Goimard: 45: 2004)

A questão está em, desvendando n, seu papel na configuração do gênero. N pode estar na dimensão linguística, no estilo, no modo de organização do texto. Mas N também pode estar naquele que produz, no que frui, nas linhas e força do campo, no contexto. Aqui estão as escolhas metodológicas. Enfim, da crença científica.

A escolha de Goimard? Fazer tipologia (que partiria dos bojetos para definir o gênero) e, sucessivamente, taxonomia (estudo em que se parte dos gêneros e se procura situá-los num sistema de gêneros):

"(...) Typologique d'abord, quand on cherche, à partir d'un corpus de films, les propriétés communes qui deviendront les critères du genre. Taxinomique ensuite, quand on étudie divers cas de présence ou d'absence de ces critères pour comparer le genre avec de genres voisins. (...)" (Goimard: 48: 2004)

O autor substitui a nomeclatura por uma 'numericlatura'. Uma solução assumidamente imperfeita, mas que levaria, ele afirma, a números superpostos, mais ou menos, aos gêneros já qualificados pela estudos correntes. O que 'contar'? Sete grupos de critérios:
1) função social (infraestrutura e superestrutura);
2) canal de comunicação (substância e forma de expressão, suporte, critéris tecnológicos);
3) estatégias da comunicação;
4) conteúdo (folclore, 'forma simples'; referente dado como real ou como imaginário);
5) classes históricas e geográficas (país, escola, autor, público);
6) critérios sociológicos e econômicos (modo de produção e distribuição; público);
7) história da crítica cinematográfica.

Sim, porque Goimard se preocupa com os filmes. Em classificá-los. E, assim, classificar os critérios de classificação.

Para nós, a palavra-chave é [critério].

6 comentários:

Jussilene Santana 10:10  

lia, voltarei aqui com mais calma.
o debate me parece instigante.
sorte e grande beijo,
Jussi

Lia Seixas 15:01  

Obrigada, Jussi,
fico te aguardando,
abraço,
Lia

Daniela Bertocchi 15:54  

Lia, muito interessante! :)

Apesar de saber da inevitabilidade das taxonomias, particularmente tendo a criar um certo distanciamento das classificações tradicionais quando penso nos gêneros digitais.

Na verdade, é apenas uma tentativa de "olhar de longe" para ver até que ponto estas taxonomias "funcionam" para os meios online, até que ponto sofrem quebras ou, por lado lado, até onde persistem.

Há muito caminho a percorrer!:)
Beijos.

Lia Seixas 16:07  

A príncípio, eu também sigo o caminho inverso, dos critérios. E acredito tb que pode ser mais produtivo.
Agora, é interessante ver como as taxonomias revelam o pensamento de uma época. Devo destrinchar um pouco mais isso.
Obrigada por usa contribuição,
um beijo.

biaribas 10:03  

muito bom, dona lia!!! vc e agora seu blog são duas das minhas melhores referências!! :-) beijos

Lia Seixas 10:08  

Oi amiga Bia,
obrigada,
fico contente!

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