11 outubro 2006

Em favor da opinião, ainda mascarada

A separação entre news and comments é uma das mais importantes, senão a mais importante, na configuração do jornalismo contemporâneo. Não só marca o jornalismo em todo o século XX, quando o empreendimento jornalístico se transforma em indústria, dando origem ao lead; mas também representa o lugar social da atividade jornalística. A separação marca, portanto, duas autoridades: a de definir quais os acontecimentos mais importantes e hierarquizar a informação; e a de opinar, conferindo juízo de valor, compreendido, em geral, como uma ação individual e ou de um núcleo da indústria jornalística (empresa, jornalista, colaborador e leitor).

A separação representa ainda a principal divisão dos gêneros jornalísticos, seguida pelos estudos brasileiros. A classificação mais estudada, seguida ou criticada, é do primeiro doutor em Jornalismo do Brasil, que dedicou boa parte da década de 90 aos estudos dos gêneros: professor José Marques de Melo. Seu trabalho mais importante – “A Opinião no Jornalismo Brasileiro” (já citado em outro post) – reafirma a separação entre jornalismo informativo e opinativo, através dos polêmicos critérios “intencionalidade determinante” (reprodução do real X leitura do real) e natureza estrutural dos relatos observáveis.

Depois de um completo mapeamento das principais classificações de gêneros jornalísticos pelo mundo (européias, norte-americanas, hispano-americanas), José Marques de Melo avalia o trabalho do professor Luiz Beltrão, primeiro doutor em Comunicação no Brasil e pioneiro nos estudos do jornalismo, incluindo os gêneros jornalísticos. Enquanto José Marques de Melo segue fiel aos estudos norte-americanos, que compreendem interpretação como explicação e, portanto parte da intenção informativa, Luiz Beltrão defendera o jornalismo interpretativo, cujo produto representativo é a chamada reportagem em profundidade (Jornalismo Interpretativo: filosofia e técnica, Porto Alegre, Sulina, 1976).

Na verdade, o professor Luiz Beltrão, muito mais do que um teórico do jornalismo, foi um filósofo do jornalismo, o qual conceituava, nada mais nada menos, como: “(...) a informação de idéias, situações e fatos atuais,interpretados à luz do interesse coletivo e transmitidosperiodicamente à sociedade, com o objetivo de difundir conhecimentos e orientar a opinião pública, no sentido de promover o bem comum”. Além disso, e aqui está a importância do seu pensamento sobre a ‘opinião no jornalismo’, Luiz Beltrão não só definia a opinião como função vertical do jornalismo, mas a defendia como dever:

“(...) O jornal tem o dever de exercitar a opinião: ela é que valoriza e engrandece a atividade profissional, pois, quando expressa com honestidade e dignidade, com a reta intenção de orientar o leitor, sem tergiversar ou violentar a sacralidade das ocorrências, se torna fator importante na opção da comunidade pelo mais seguro caminho à obtenção do bem-estar e da harmonia do corpo social.” (Beltrão: 1980: 14)

Mais do que escolher um lado política e socialmente (dimensão coletiva) ou apresentar um juízo de valor (dimensão individual), opinar seria uma função social, que deveria “captar, em qualquer campo, aquele objeto importante sobre o qual a sociedade exige uma definição”. Captar esse tema, essa pergunta latente num momento, conduziria a atividade jornalística a firmar-se como uma instância à qual se poderia recorrer.

Não queremos dizer que não existe o exercício da opinião no jornalismo brasileiro. Existe. Tem autor e espaço determinados, e se manifesta, teimosa, na linha editorial (salvo as publicações que defendem o “jornalismo de opinião” como a Carta Capital e revistas da Abril). Temos as seções de debates. Entretanto, a opinião continua pedindo licença e entrando pelo fundo. Socialmente, o jornalismo crível deve ser arauto d(a) verdade, que se encontra apenas na informação. Sabemos, entretanto, que muitas ações verbais não podem ser verdadeiras ou falsas, mas bem ou mal sucedidas.

Não estamos defendendo, necessariamente (mas simpatizamos), o “jornalismo de opinião” (em que as coberturas são abertamente identificadas com posições ideológicas e partidárias), porém é possível constatar um movimento em favor da opinião, ainda que dita individual independente, em setores do jornalismo. Acreditamos que um marco neste movimento foi a criação, há quase 10 anos, da revista Caros Amigos.

O fato é que, hoje, os territórios são bem demarcados. Quem informa não pode opinar e quem opina pressupõe informações dadas.

Uma explicação, triste, talvez esteja na própria sociedade brasileira, que, com perdão do trocadilho, tem um nível crítico de análise crítica.


Complementares:
Artigo que marca o trabalho do professor José Marques de Melo em recuperar, reunir e disponibilizar o conjunto da obra de Luiz Beltrão: "Luiz Beltrão: pioneiro dos estudos de folk-comunicação no Brasil", publicado na Revista Latinomaericanda de Comunicação e pela BOCC.


Portal Luiz Beltrão


Cibermemorial Marques de Melo


Artigo do professor Venício A. de Lima em defesa do “jornalismo de opinião”: “Transparência em nome do interesse Público”, Observatório da Imprensa, abril passado.

Livros citados:
Beltrão, L. Jornalismo Opinativo, Porto Alegre, Sulina, 1980.
Beltrao, L. Jornalismo Interpretativo, Porto Alegre, sulina, 1976.

5 comentários:

Marcos 07:42  

Mas e quanto às transformações que estão sendo trazidas pela digitalização e disponibilização em Rede dos veículos jornalísticos?
Há toda uma nova forma de noticiar e opinar a ser considerada como resultado do establecimento e consolidação das redes telemáticas como suporte para a produção jornalística. Blogs estão sendo produzidos por jornalistas, complementando e comentando notícias; blogs estão sendo produzidos pelo público em geral, monitorando a coberta dos média tradicionais; os jornais e agências estão usando a blogosfera como complemento e extensão de suas coberturas (veja-se por exemplo o acordo entre CNN e Technorati e o uso extensivo de blogs pelo The Guardian inglês). Além disso, grande parte dos jornais online abre espaço não só para comentários de leitores (que se tornam muito mais rápidos e dinâmicos, que as tradicionais "cartas do leitor"), como também para a postagem de material jornalístico (textual e imagético) produzido por usuários. O choque entre "imparcialidade" e "opinião" recebe outras colorações, e levanta novos problemas, como no caso da recente censura imposta pela CBS News sobre os blogs de seus jornalistas: http://gjol.blogspot.com/2006/10/cbs-news-estabelece-censura-prvia-para.html#links

marcos palacios

Lia Seixas 11:02  

É verdade, professor! Acho que a inciativa mais relevante é da CNN, mas será que os blogs de jornalistas,de alguma forma, não reafirmam essa separação entre news and comments, que vem exatamente do jornalismo norte-americano? Pq só pode opinar no seu blog (individual) e tem q passar pelo crivo.
Eu estou pensando mais na opinião como função social da própria indústria jornalística, sabe?
Se a gente comparar com a França, podemos ver que o jornalismo francês tem outra relação com a análise contextual (vide a cobertura que o LeMonde faz das Eleições no Brasil, que coloca Lula como "um homem do povo").
Será q a indústria jornalística brasileira (foi um foco que tentei dar ao texto) já está vivendo e levantando tb novos problemas? Eu vejo que o debate tem ocorrido apenas na blogosfera, mas acho q este movimento pode pressionar a mudar as coisas.
Agradeço muito o comentário e vou ficar mais atenta a esse fluxo...
Abraço

Raphael 19:38  

Nesta revolução tecnológica, ganha corpo também a informação produzida pelos indivíduos "comuns", não-jornalistas, que a princípio não têm o compromisso social de informar imparcialmente. Só a presença deste grupo já mostra a mudança de paradigma na modalidade da produção da informação. O jornalismo interpretativo ganhou força quando a TV chegou, e os jornais precisaram se adaptar à nova realidade para competir com a imagem em movimento. Diante da internet, estarão os veículos impressos se adequando a um novo modelo? Acho que está na hora, mesmo, de todos mostrarem a sua cara. Defender um ponto de vista não é nenhum crime. Só condeno a hipocrisia de se dizer isento e publicar informações tendenciosas.

Raphael 19:40  

Pensei em algo agora: e se a tendência for mesmo que cada veículo assuma claramente uma posição política, ideológica, cultural, social? Será que os públicos estariam interessados em ler/ouvir/assistir à produção de um jornal/revista/emissora com um viés contrário ao seu? Ou estarei exagerando: os veículos podem assumir sua posição, porém devem estimular o debate e a troca de idéias dando voz a quem rivaliza com suas opiniões?

Este texto traz um ótimo ponto para reflexão, Lia. Parabéns.

Lia Seixas 10:49  

Oi Raphael, obrigada. O objetivo mesmo é refletir e trocar idéias.
Olha, eu concordo que as medias digitais colocam em movimento novas forças e estas obrigam a grande mídia (mediasfera) a se transformar, assim como vc fala do 'jornalismo interpretativo'.
Nesse texto, minha intenção foi defender a função social de 'opinar' do jornalismo, enquanto instituição social e forma de conhecimento do mundo. Mas, é verdade, tenho dúvidas (acho q não) de que o público brasileiro esteja maduro para tal...

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