15 maio 2007

Palavra de especialista

A partir do V Celacom, focado, esse ano, nos gêneros comunicacionais (veja post abaixo), surgiu a idéia de ouvir dos pesquisadores presentes ao evento suas opiniões sobre o desenvolvimento dos estudos de gênero (discursivo e textual) no Brasil.

Fizemos uma questão, enviada por e-mail, a todos os participantes das mesas Gêneros Comunicacionais: teoria e práxis, Gêneros Midiáticos; formatos impressos e audiovisuais e Gêneros Digitais: tipologia da Internet, e que efetivamente estudam os gêneros no campo da comunicação.

A questão foi: "A partir do Celacom e das suas pesquisas, qual seria o nivel de desenvolvimento dos estudos de gênero (discursivo e textual), nos campos da comunicação e da linguistica, no Brasil?"

Recebemos duas respostas, muito interessantes, de dois grandes pesquisadores do campo jornalistico: a professora Elizabeth Duarte (Unisinos, RS), que se dedica aos estudos dos gêneros televisivos; e o professor Elias Machado (UFSC), presidente da SBPJor e pesquisador do jornalismo digital; , aos quais agradeço publicamente a disposição na declaração e o interesse no assunto.

Abaixo transcrevemos as respostas recebidas, com destaques nossos em negrito.

Matheus Vaucher (Celacom)
Elizabeth Duarte

"Os estudos sobre os gêneros midiáticos estão bastante avançados entre nós. As dificuldades encontradas devem-se acima de tudo à hibridação que caracteriza esse tipo de produto.

Mas, para fazer avançar estas pesquisas, é necessário abandonar as tipologias adotadas/sugeridas pelas próprias mídias que respondem a lógicas econômicas e de produção e buscar categorias suficientemente abrangentes e não-contraditórias que possam verdadeiramente caracterizar os produtos midiáticos, e distingui-los entre si."



Matheus Vaucher (Celacom)
Elias Machado

"Não vou me ater ao estudo dos gêneros de uma forma geral. Por uma questão de formação, prefiro me centrar no caso do estudo dos gêneros no jornalismo e, mais especificamente, no jornalismo digital, minha área de pesquisa. No Brasil, o estudo dos gêneros jornalísticos deveria merecer uma atenção muito mais concentrada do que vem tendo ao longo dos anos. Com raras exceções, articuladas em torno das pesquisas pioneiras de José Marques de Melo e seus orientandos, falta-nos um mapeamento atualizado e localizado e, mais que isso, uma produção conceitual compatível com a importância desta área de pesquisa para a compreensão da prática jornalística. Entre nós um dos poucos gêneros mais
estudados é a crônica e, mesmo neste caso, muito mais nas pós-graduações em Letras do que em Comunicação. Por comparação, basta citar a experiência espanhola, que vem produzindo trabalhos de pesquisa de grande mérito em centros como a Universidade de Navarra, a Complutense de Madri e a Universidade de Sevilha, com teses inovadoras sobre Crítica, Entrevista, Suelto, Coluna, Editorial, Comentário, Infografia, entre outras.

Se levarmos a questão para o radiojornalismo e o telejornalismo, a situação fica mais crítica, uma vez que são ainda mais raros os trabalhos conceituais sobre gêneros e formatos, predominando – com uma ou outra exceção, a publicação de manuais, com definições meramente pragmáticas. Do ponto de vista dos gêneros no jornalismo digital podemos identificar alguns avanços com a existência de trabalhos pioneiros desenvolvidos por pesquisadores do Grupo de Jornalismo On-line da Universidade Federal da Bahia, Raquel Porto Alegre, Leila Almeida e Beatriz Ribas e pela doutoranda Lia Seixas, que trabalha com o professor Giovandro Ferreira, e por colegas da UnB, USP e UFRGS, no caso dos Blogs. Em boa medida são estudos de natureza conceitual e de escopo mais geral.

O que nos falta é a criação nas pós-graduações em jornalismo e, nas de comunicação, de grupos de pesquisa específicos sobre gêneros e formatos para que seja feita uma sistematização dos gêneros utilizados e das suas especificidades nos diversos tipos de suporte: impresso, telejornalismo, radiojornalismo e digital. A inexistência de grupos articulados em forma de redes permanentes sobre um objeto determinado dificulta a produção conceitual e acaba por dispersar os resultados dos esforços individuais dos pesquisadores. O grande desafio consistiria em desenvolver pesquisas comparadas nacionais e internacionais para o mapeamento e a definição dos gêneros e formatos utilizados. Como todos sabemos, os gêneros e formatos são convenções históricas, adotadas de acordo com as possibilidades, conveniências e condições políticas, culturais e de infra-estrutura de cada circunstância. Neste caso, caberia aos pesquisadores identificar os gêneros e formatos existentes em nosso país, as diferenças e particularidades (nas definições, estrutura textual, nas formas narrativas, nas condições de produção, das funções dos sujeitos articulados em torno destas práticas discursivas, etc...) de estado para estado e de país para país."

O debate esta aberto!


Para mais informações sobre o Celacom, veja os blogs da cobertura (gentilmente indicados pela professora Najara Pereira):

http://coberturasimplesmasesforcada.blogspot.com

http://coberturacelacom2007.blogspot.com

http://celacom2007.blogspot.com

1 comentários:

Lia Seixas 06:10  

O texto publicado no Jornal Intercom Noticias:
http://www.intercom.org.br/boletim/a03n59/forum_generos.shtml

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