26 outubro 2008

Ladrão ou acusado de 420.212 processos?

Com um exemplo simples, Clóvis Rossi, jornalista sênior e colunista há 20 anos da Folha de S.Paulo, explica, de forma clara e segura, a diferença entre opinião e interpretação: 

"(...) Na opinião, eu digo: "O político X é ladrão". Na interpretação, eu digo que o político X é acusado de 420.212 processos, dos quais 7 foram julgados, nos quais foram condenados em primeira instância, está recorrendo, etc e tal, mas não preciso chamá-lo de ladrão. (...)"

Esta discussão tão cara ao jornalismo, parece simples numa conversa com Rossi. Repórter especial para assuntos internacionais e dono de uma das três colunas mais lidas da Folha, diariamente Rossi produz textos opinativos e frequentemente reportagens. Nestas últimas, é fácil ver um alto nível de interpretação, parceira legítima de informação, sinônimo de contextualização, na visão de Rossi.

Neste mesmo fio de pensamento, não é possível ver a teoria da interpretação? Sim, porque os "elementos que levam à formação da opinião do leitor" são submetidos e avaliados pela intersubjetividade, reponsável por esses parâmetros.  Interpretação parece estar mais próxima da conexão, articulação de fatos, dados, objetos de realidade. A opinião implicaria explicitamente a subjetividade, neste caso, por uma definição. O nó está no limite entre a duas, não?

Nesta e noutras questões como imparcialidade, esta breve, mas esclarecedora entrevista faz a gente pensar. Analise as entrelinhas dos motivos para a distância entre redação impressa e digital. Ouça alguns trechos em áudio, quando a entonação decidida e crítica faz bastante sentido. E, por fim, veja como Clóvis Rossi, tão respeitado e lido no Brasil, ainda não está plenamente satisfeito com sua carreira.

Espero que aproveite! Esta é a primeira de algumas boas entrevistas da nossa tese de doutorado, realizadas, todas, em abril deste ano. Agradecimentos aos jornalistas que nos abriram as portas em suas vidas profissionais sempre corridas. Aqui, em especial, ao Clóvis Rossi.
(Foto: Fnpi)


Qual o seu trabalho hoje na Folha de S.Paulo?
Meu trabalho é fazer a coluna da página 2. Basicamente duas coisas: fazer a coluna como obrigação fixa, diária, inamovível e única, pela qual eu recebo e fazer reportagens, de preferência no exterior, porque eu sou fascinado por assuntos internacionais como um complemento a essa atividade.

E o Conselho Editorial?
O Conselho Editorial tem reuniões trimestrais, quando muito. Um almoço a cada três meses, no qual se discute muito mais a situação política, ecnonômica, às vezes jornalismo, mas sem envolvimento com o dia-a-dia. Não considero que seja uma atividade vinculada a minha atividade diária.

Não tem decisões como "vamos dar força para tal tema no Brasil"?
Não, não. Essa é uma decisão que se faz na direção de redação e diretores. Eventualmente consultando não apenas membros do conselho editorial, mas também jornalistas seniors. Eu sou mais consultado como jornalista senior. No dia-a-dia, não interfere em nada.

Diante das duas funções básicas, como você diferenciaria o Clóvis Rossi colunista do Clóvis Rossi repórter?... se é possível diferenciar.
Não devia ser, mas acabou sendo. No começo, quando me convidaram pra fazer a coluna, a minha idéia era muito mais de interpretação do que de opinião. Proposta que me veio à cabeça, não estava preparado pra isso, nunca pensei, nunca sonhei com isso, etc. 
[Áudio, trecho1]
No começo, a coluna [completa 21 anos este ano] era um subproduto do trabalho de apuração para a reportagem. Era a última a ser escrita. Eu privilegiava o trabalho de repórter. Acontece que o trabalho de repórter gerava um volume de informações que não cabia na coluna. Na hora de escrever a coluna, eu só dava opinião, não podia repetir análise ou a informação que já estava na página 4, 5,6 10, 20, 30, sei lá. Sobrava opinião. Foi ficando como opinião. Acabou tendo público. Enfim, as característica do próprio jornalismo foram mudando. As colunas se tornaram uma espécie de feature fixa importante dos jornais, como diferenciação entre os jornais. O caso do O Globo hoje por exemplo que tem muita coluna.  Acabou virando um texto de opinião. Na reportagem, a opinião é uma coisa bastante marginal, lateral, não é central ao trabalho da reportagem. Na reportagem, você tem informação e interpretação da informação,  mas tem pouca opinião. Na coluna, você tem basicamente muita opinião e pouca informação. Essa é a grande diferença.


Qual seria seu conceito de interpretação? ...jornalisticamente falando.
[Áudio, trecho2]
Se quiser uma coisa simplificada, um exemplo. Na opinião, eu digo o político X é ladrão. Na interpretação eu digo que o político X é acusado de 420.212 processos, dos quais 7 foram julgados, nos quais foram condenados em primeira instância, está recorrendo, etc e tal, mas não preciso chamá-lo de ladrão. Eu tenho todos os elementos para que o leitor faça sua própria leitura. Mas está ali informação suficiente para que, no fundo, ele chegue à mesma conclusão, até porque eu não sou louco nem débil mental para colocar que, na minha opinião, fulano é ladrão sem ter os elementos para sustentar uma afirmação dessa gravidade. Evidentemente que estou caricaturando um pouco até porque nunca chamei ninguém de ladrão. Só para te dar uma diferenciação entre opinião e interpretação. Basicamente é essa: na opinião, eu dou a minha opinião e na  interpretação, em vez de dar minha opinião, eu dou todos os elementos que levam à formação da minha opinião e o leitor, a partir daí tira a conclusão dele, se ela é correta ou é cretina.

Contextualização estaria dentro de interpretação?
Sem dúvida. Poderia ser até outro nome de interpretação.

As pessoas compram a Folha de S.Paulo para ler a coluna do Clóvis Rossi?
Não, não creio. Não creio que compra por um único motivo, embora a mais recente pesquisa interna esteja sempre dentre as três mais lidas, só perde pra José Simão, na última pesquisa; empata com o Cony. Não creio que se eu morrer, passar para Estadão ou para o Globo, afetarei a circulação da Folha e vai aumentar a do Estadão ou do Globo, não creio. As pessoas, acho eu, compram o jornal por um conjunto de fatores, e não para ler uma determinada pessoa ou um determinado assunto.

Mas, quando você escreve para a coluna ou para reportagem, em quem você pensa, quem é o leitor?

O chamado leitor médio, figura absolutamente inexistente. Eu imagino o seguinte, o leitor médio de acordo com as pesquisas da Folha é mais ou menos o que eu sou. Formação universitária, classe média, média, média, média-alta urbano, informado. Portanto, o que me impressiona, o que me choca, o que me indigna, o que me anima, teoricamente, bota teoricamente nisso, vai estimular, ou deixar feliz o leitor-médio da Folha. No fundo, pensando em mim como um microcosmo do leitor médio da Folha. Eu escolho o assunto para coluna. Para reportagem você não escolhe assunto, agora, sempre imaginando que, quando você está fazendo reportagem, que no fundo, no fundo, você é o universo especial do leitor (me refiro a coberturas internacionais). O cara quer saber como são as coisas lá fora, na coisa que você está cobrindo. Assim que funciona a minha cabeça. Certo ou errado. Não vejo outra maneira. Tem que ter um mínimo de referência e a minha referência é o leitor-médio da folha, perfil no qual eu me enquadro circunstancialmente.


Como enviado especial, quais são os lugares mais comuns que você tem ido?


Não tem essa de lugares mais comuns. Escrevi um livro em 98, "Enviado Especial 25 anos ao redor do mundo". Recolhi textos publicados nos cinco continentes, sempre na condição de enviado especial, desde o golpe no Chile, em 1973, até a Copa na França, 1998, 10 anos atrás. Tinha tudo ali. Acho que devo ter o record absolutamente inútil, mas em todo caso o record de cobertura de transições de autoritarismo para democracia. Brasil, Uruguai, Argentina, Bolívia, Chile, Peru, El Salvador, Nicarágua, Guatemala, Espanha, Portugal, África do Sul, citando rapidamente. Não creio que tenha outro jornalista no mundo que tenha transições de 12 transições do autoritarismos para a democracia. São 3 continentes completamente diferentes. 

Se você perguntasse para onde eu gostaria de ir sempre, seria basicamente a Espanha e a França, mas aí por uma questão estritamente de gosto pessoal. Se eu pudesse dirigir minha carreira para um tema, sem dúvida seria política internacional. Situações internacionais e relações Brasil-mundo, mas para isso, precisa ter muito talento para conseguir escolher em todo "supermercado" da profissão, o nicho em que você vai se inserir e eu nunca consegui. Faço bastante, até mais do que a média dos jornalistas, mas não faço só o que eu gostaria de fazer.


No Brasil, a imprensa precisa parecer imparcial para o público. Na França não, os jornais têm linhas políticas definidas e claras. Você concorda comigo ou não?

Parcialmente. Eu acho que essa necessidade de parecer imparcial existe em todo lugar do mundo, mesmo na França. Vamos pegar os dois maiores jornais franceses, Le Figaro, Sarkozy e Le Monde, que apoiava Segolène Royal, faziam o possível para parecer que estavam cobrindo a eleição prescindindo das suas escolhas de candidato. Se você tivesse um pouco de informação prévia, dava para você acompanhar o que estava acontecendo na eleição francesa, mesmo que se você lesse só um desses dois. 
Digamos que por alguma razão você só pudesse comprar o Le Figaro, ainda assim estaria razoavelmente informado sobre o que estava acontecendo na eleição. Ou com o Le Monde também estaria razoavelmente informado. Há essa necessidade, se não você perde credibilidade. Não dá para você transformar um jornal num panfleto de uma candidatura ou outra. O problema é que o modelo da imprensa brasileira é a imprensa americana. Ainda quando escolhe candidato, escolhe o candidato restrito à página de editoriais. (...) 
A regra geral é que o noticiário procura ser o mais independente possível, o mais equidistante possível das diferentes candidaturas no EUA. E esse é o modelo, não só de coberturas eleitorais, mas o modelo de cobertura que a imprensa brasileira acabou adotando. Se explica melhor esse distanciamento, essa necessidade de não parecer pró ou contra o candidato X ou Y, diferentemente do que acontece na França, onde se assume mais claramente cada candidatura.

No caso da Folha é diferente. A Folha fez da independência, do apartidarismo, do pluralismo um ativo de venda, de prestígio. A Folha nunca escolhe o candidato, nem na página editorial nem no noticiário. A Folha nunca teve candidato nem de um lado nem do outro, o que nos diferencia de outros jornais. O Estadão, por exemplo, escolhe candidato, eventualmente, mas nem sempre. O Globo antes escolhia, agora menos. A Folha fez essa escolha, do apartidarismo, do pluralismo, que eu acho a escolha perfeita. A Folha não é nem o modelo norte-americano, porque o modelo assume na página de editorias, como o NYT, a campanha da Hillary Clinton e o noticiário continua absolutamente aberto a críticas; nem a posição francesa.  É impensável que o Le Figaro escolha Ségolène Royal. 
O modelo da imprensa brasileira é basicamente a imprensa americana com essa possibilidade de escolha limitada às páginas de editoriais. O que nem sempre acontece no Brasil. A exceção nesse panorama é a Folha de S.Paulo. Ao passo que a imprensa européia já é pré-identificada com os candidatos. Todo mundo sabe que o El País ficará com candidato socialista. (...) Aí já está pré-escolhido, não é o caso do jornalismo brasileiro.


Existe uma distância muito grande das duas redações, Folha Online e Folha de S.Paulo. É real?
[Áudio, trecho3]
Sim, é real.

Não me pergunte porque, mas é real. Fica ainda mais real se comparada com as dos outros jornais. Exemplo concreto. Os repórteres do Estadão que cobrem notícias presidenciais, são obrigados a mandar flashs de uma forma que eu acho completamente maluca, obsessiva, histérica, o dia inteiro, de 5 em 5 minutos. (...) São obrigados a fazer para a agência, o que a meu ver pode até atrapalhar o trabalho, porque está desviando a atenção da cobertura pra telefonar e passar flashs para a agência.  De repente, no momento em que você está no celular você alguma coisa, uma brincadeira, aí prejudica o produto principal. Eu estou me referindo principalmente à cobertura. A Folha faz a sua cobertura para o papel. Acho que isso explica a distância. Na Folha, não há essa obrigatoriedade. (...) A Folha Online se quiser que tenha seu próprio diário especial, seu correspondente. Cada vez tem mais, o que eu acho ótimo. Acho péssimo que o mesmo jornalista faça ambas as coisas, primeiro porque é pouco profissional, segundo porque te desvia do teu tabalho principal. O que sustenta os jornais ainda é o papel. O leitor avançou, a internet, o que você quiser, mas não dá dinheiro.

9 comentários:

Demétrio de Azeredo Soster 04:53  

Muito relevante o post, Lia. Forte abraço

Lia Seixas 09:44  

Obrigada, Demétrio, um abraço.

Fernando Firmino da Silva 15:12  

Assino embaixo também. Gosto muito da capacidade de Clóvis Rossi de escrever muito (nas reportanges) e escrever de forma sintética (nas colunas) com um texto apurado, de qualidade.

Entrevista interessante...

Fernanda 12:50  

Olá Lia, gostei bastante do blog, estou escrevendo minha monografia para conclusão de curso, e pretendo fazer a análise do discurso de uma obra de jornalismo em quadrinhos, instituindo-o como gênero jornalístico. Gostaria de conversar com você a respeito, discutir uma bibliografia em comum, seria possível? Obrigada!

Cristina Pascoal 23:25  

Oi Lia,
Acredito ser bastante interessante quando ele foca a mudança de perspectiva sobre a importância da opinião dentro do veículo. Em uma breve reflexão... não seria o caso do jornalismo voltar aos seus primordios, no que se refere ao gênero opinativo?
Bjs

elke 18:17  

Oi, Lia

Tõ fazendo uma dissertação sobre análise de discurso em blog de jornalistas. Era pra ser "jornalístico", mas minha orientadora disse que texto opinativo não é jornalístico. Vou usar seu livro como referência.

elke 18:17  

Oi, Lia

Tõ fazendo uma dissertação sobre análise de discurso em blog de jornalistas. Era pra ser "jornalístico", mas minha orientadora disse que texto opinativo não é jornalístico. Vou usar seu livro como referência.

toniandre 08:02  

Não querendo ser preciosista, mas o correto não é acusado em 420.212 processos (judiciais).

Professora 09:22  

Essa foi boa...toniandre.
abraço,

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